O Poder das telecomunicações

No dia 18 de novembro de 1982, inconformado com a demora na divulgação dos resultados da eleição, em que era tido por todos como candidato vitorioso ao governo do Rio de Janeiro, Leonel Brizola procurou a imprensa internacional para denunciar uma tentativa de fraudar a apuração e declarar eleito o candidato do PDS Moreira Franco.


Mais tarde, o candidato do PDT foi à sede da Rede Globo de Televisão, no Jardim Botânico, no Rio, e exigiu espaço para falar. Ele via na emissora o braço direito da conspiração, pelo modo faccioso com que se comportou, ao desconhecer os resultados favoráveis a Brizola, que eram corretamente projetados pelo Jornal do Brasil; e a Rádio Jornal do Brasil.

Como se verificou depois, segundo denúncias que também partiram de funcionários da própria Rede Globo, as Organizações Globo, juntamente com o SNI estavam envolvidas naquilo que mais tarde se tornou conhecido como a Operação Procconsult.

Esta operação, que levava o nome da empresa encarregada de proceder à apuração do Rio de Janeiro, a Proconsult-Racimec – de propriedade de antigos oficiais de informação do Exército – tinha como objetivo virar na marra os resultados em favor do candidato do Governo federal na época, Moreira Franco.

A estratégia consistia em sonegar os resultados da capital, a cidade do Rio, que reúne mais de dois terços do eleitorado do Estado, e onde Brizola obteve cerca de 70% dos votos, e só divulgar uma média das apurações do interior, onde Moreira era majoritário, com as da periferia e parte da capital, de modo que situasse sempre Moreira Franco à frente dos votos. Isto era para infundir no público a convicção de que Moreira Franco e não Leonel Brizola ganharia a eleição.

Da contenção dos resultados da capital, a Proconsult passaria para a inversão pura e simples dos mapas eleitorais, em favor de Moreira .Franco, na proporção que o público fosse trabalhado subrepticiamente pela Rede Globo a achar que o candidato do PDS, que já fazia declarações nas emissoras de rádio e televisão na qualidade de virtual governador, tinha sido mesmo o vitorioso.

As denúncias de Brizola, que logo chegaram à opinião pública nacional acabaram provocando grande impacto popular, com reações nas ruas do Rio contra os veículos das Organizações Globo que não incluam somente a televisão, mas o jornal O Globo e a Rádio Globo.

Pressionada por aquilo que ameaçava se transformar numa rebelão popular de proporção nacional contra a Globo, a emissora não teve outra saída, senão conceder espaço a Brizola para fazer a denúncia e abortar a conspiração contra as urnas, em plena cidade do Rio de Janeiro. E isto foi feito no horário de depois das 22 horas daquele dia 18 de novembro de 1982.

Ali mesmo, Leonel Brizola assegurou a verdade eleitoral. Logo depois de sua entrevista, á tarde, aos correspondentes estrangeiros, a Globo passou a admitir que Brizola encaminhava-se para chegar à frente dos votos e não mais Moreira Franco, como a emissora vinha insinuando, desde o início da apuração, que tentou esconder, juntamente com o SNI.

Até à noite de 18 de novembro, os resultados chocavam-se violentamente com os da Rádio Jornal do Brasil;, que projetou a vitória de Brizola sobre Moreira Franco, com mais de 100 mil votos de vantagem, desde o término da votação, no dia 15 de novembro.

A fala de Brizola na Rede Globo teve um efeito tão fulminante, que a emissora se viu obrigada a suspender, no outro dia, 19 de novembro de 1982, toda a programação eleitoral, que incluía inserções quase de hora em hora sobre a marcha da apuração, a partir de um grande aparato, em que havia até computadores dentro do estúdio, para manuseio dos apresentadores. Os resultados eleitorais passaram então a ser divulgados, agora com correção, dentro dos telejornais.

Entrevista à Rede Globo

Seguem-se os trechos principais da entrevista de cerca de meia hora conduzida pelos jornalistas Paulo César de Araújo e André Gustavo Stumpf, sob a coordenação de Armando Nogueira, então todo-poderoso diretor de jornalismo da emissora.

Paulo César de Araújo – Nós estamos aqui com o ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-deputado federal pela antiga Guanabara, o engenheiro Leonel de Moura Brizola. Segundo as últimas projeções do Centro de Computação de O Globo, o candidato do PDT ganharia as eleições no Rio por uma margem apertada sobre o candidato do PDS. Dr. Brizola, segundo suas previsões, por quanto o senhor ganharia, com que índice o senhor ganharia as eleições no Rio – na capital, no interior e na periferia?

Leonel Brizola – Rigorosamente, eu, sob o ponto de vista pessoal, não tenho, nunca fiz projeções. Sabe que eu sou empírico. Essas técnicas americanas, por exemplo, eu não entendo delas. E acho que são muito relativas, num país, como o Brasil. Em geral, elas não dão certo aqui. Agora, a minha convicção sempre foi a de que nós iríamos vencer as eleições…

André Gustavo – Dr. Brizola…

Leonel Brizola – …E agora que as eleições já estão com as suas apurações mais ou menos avançadas, já se superando um pouco esse quadro de confusão, o nosso pessoal, no partido, que está fazendo ali as suas projeções, os seus cálculos…

Paulo César de Araújo – O senhor está eleito, hoje?

Leonel Brizola – …Nós consideramos que só a fraude pode ameaçar a nossa vitória. Não minha, pessoal, porque eu sempre tenho afirmado que não seria nunca a vitória de uma pessoa nem de um grupo de pessoas e nem mesmo de um partido. Seria a vitória do povo do Rio de Janeiro. Porque – olha que sacudir essa parafernália de propaganda, esses golpes todos que nos deram aí…

André Gustavo – O senhor considera…

Leonel Brizola – …Esse rio de dinheiro, sem nada, essa população do Rio de Janeiro – tem que se tirar o chapéu! O mundo tem que tirar o chapéu para o Rio de Janeiro!

André Gustavo – O senhor falou que só a fraude pode impedir de o senhor se considerar eleito. O senhor acha, o senhor acha razoável, o senhor teme a fraude?

Leonel Brizola – Tememos sim! Tememos! Tememos, sim!.

Paulo César de Araújo – Só que o candidato do PDS tem essa mesma opinião. Ele acha que só a fraude o tirará do governo…

Leonel Brizola – Eu não sei no que ele pode se basear. Eu acho que ele está se baseando no noticiário da TV Globo, porque ela está atrasada. Está dando enfoques diferentes. Mas, rigorosamente, nós tememos a fraude, porque se criou no Rio de Janeiro um ambiente favorável a isto. Porque, veja o seguinte: se estabeleceu um conflito entre os meios de comunicação. Quer dizer, uma estrutura apararelhadíssima, imensa e sobretudo contando com profissionais da mais alta categoria, como a Rede Globo e outros órgãos de comunicação, como Rádio Jornal do Brasil. Enfim, entraram em confronto, em conflito de dados. E jogando toda essa massa de informações sobre a população, que ficou atônita. E esta situação resultou, em primeiro lugar, num desmerecimento para o Rio de Janeiro. Porque, quando nós víamos o noticiário – e eu me aprontei como cidadão para acompanhar pelos meios de comunicação… que em todo o Brasil o noticiário caminhava certo. Veja São Paulo, como chegou, tudo caminhando… E no Rio de Janeiro, nós para trás, confusos, não sabíamos, a população atônita. Então, isso levou até às apurações. Sabe que lá, no recinto das apurações, se criou um quadro de tensão entre os fiscais; as pessoas na rua, por toda parte…

André Gustavo – Mas isto…

Leonel Brizola – …Isto, eu acho, criou um clima favorável à fraude no Rio de Janeiro. Criou um clima. Porque, rigorosamente, se houvesse um desenvolvimento normal dos números que as apurações estavam revelando, não se criaria inclusive uma falsa atmosfera de expectativa do próprio governo com o seu candidato…

André‚ Gustavo – O senhor não acha que essa dificuldade com os números talvez não refletisse também, deixando … margem a problemas técnicos, não refletisse também a dificuldade da própria eleição? Porque, afinal de contas, uma eleição, segundo as expectativas dos seus assessores, poder ser ganha por uma margem de quatro, cinco, seis pontos percentuais, talvez sete. Isso, num horizonte, num universo de cinco milhões de votos não é uma margem grande. Enfim, trata-se de uma eleição disputada, também…

Leonel Brizola – Eu compreendo. Mas isso não acontece nos outros Estados, só aqui. Aí está ! E o Rio de Janeiro ‚ o centro cultural mais importante, ‚ onde há o maior nível cultural e político. Eu até te responderia, voltando à tua primeira pergunta – se eu me considero eleito. Olha, mais do que isso, nesse momento, eu deveria assumir, simbolicamente. Assumir, mesmo, a representação, o governo do Rio de Janeiro, simbolicamente, para defender os interesses da população. Porque o Rio de Janeiro ficou um Estado desmerecido, no conjunto da federação. Ele tinha que está com o melhor das apurações. Eu, também nisto, quero assinalar o péssimo nível do serviço público, aqui, que se reflete sobre a Justiça Eleitoral, que é um organismo sempre desaparelhado, que conta com a colaboração das administrações. Como no Rio de Janeiro o serviço público tem um péssimo nível – o serviço público estadual e de muitos municípios -, então, acontece que a Justiça Eleitoral sofre disso. E isso não é nenhuma desconfiança sobre a Justiça Eleitoral.

Paulo César de Araújo – Pois eu queria perguntar ao senhor sobre isso. O senhor acha que a Justiça Eleitoral podia se deixar ficar tumultuada com esses números…

Leonel Brizola – Não! Nós confiamos muitíssimo na Justiça Eleitoral, nos seus juizes, nos seus tribunais. Agora, reconheço que ela ficou em dificuldades e, por isso mesmo, ineficiente, sob muitos aspectos, por desaparelhada, tanto de pessoal quanto materialmente. As juntas apuradoras se transformaram em muitos casos quase que num tumulto, devido ao acúmulo de pessoas e ao desordenamento geral. Porque faltou à Justiça Eleitoral, aqui, uma colaboração real da administração estadual. Eu, como governador, fiz muitas eleições. Pode crer. E funcionou tudo como um relógio. Mas ofereci tudo á Justiça Eleitoral. E quero dizer que, assumindo o governo do Rio de Janeiro…

Paulo César de Araújo – Pois, ‚ eu…

Leonel Brizola – …Eu vou cultivar uma colaboração com a Justiça Eleitoral, para que as eleições sejam fáceis, se apurem rapidamente, em ordem, que seja fácil votar e por isso praticar a democracia.

Paulo César de Araújo – Eu só queria voltar ao ponto que o André colocou. O senhor se considera eleito?

Leonel Brizola – Olha, pessoalmente, eu não assumo assim esta pretensão de dizer: Bom, eu me declaro eleito. Não. Nem candidato eu me declarei. Porque, realmente, eu fui candidato por uma necessidade. Mas registro e sinto, e por isso eu até‚ continuei em campanha. Eu fiz campanha para vencer. E agora estou fazendo campanha para defender a verdade eleitoral. Então, eu digo o seguinte: eu me preparo para governar o Rio de Janeiro, porque eu sinto as tendências da população. Agora, por uma questão ética, e por uma questão da minha própria natureza, eu não coloco a carreta adiante dos bois. Quer dizer, eu só me considerarei governador eleito a partir do momento em que o veredito das urnas seja perfeitamente claro, definitivo, inequívoco. Mas constato, constato as tendências e estou convencido de que nós vamos vencer as eleições por uma diferença em torno de 300 mil votos. E que só a fraude pode retirar do povo do Rio de Janeiro esta vitória.

André Gustavo – Dr. Brizola, essa dificuldade com os números da eleição, aqui no Rio, também não poderia refletir uma profunda divisão do eleitorado carioca, sobretudo da oposição carioca, entre o PDT e o PMDB? Um fenômeno muito semelhante ao que aconteceu no Rio Grande do Sul?

Leonel Brizola – Olha, eu não vejo isso como problema para as apurações. Veja o seguinte: como é que as urnas do interior podiam chegar? Fazer uma viagem de Campos, até lá e não podiam vir as de Bangu? Isto é que é o problema, compreendeu? Então, a população do Rio de Janeiro se sentiu muito agredida com isso. Eu acho que isso está passando. Finalmente nós estamos chegando aonde precisávamos chegar e devíamos chegar. Não é verdade? Todos os que estão fazendo a computação, recolhendo esses dados já estão chegando a uma posição, fazendo uma previsão. Não está havendo uma contradição tão gritante, agora, dos dados. Eu registro isso com alegria e com conforto. Porque se isso estivesse sendo contra mim, eu também registraria. Porque eu acho que ‚ muito ruim para uma comunidade, para uma cidade, estabelecer um clima, compreendeu, de aflição, de sofrimento, de tortura! Sabe? De tortura!… na cidade. Eu vi pessoas chorando: “Eu não me conformo com esta confusão, com este tumulto”. Muito bem, então, eu acho que isto está passando. Acho que temos de recolher desse episódio grandes lições. Particularmente, nós, tivemos de tomar providências. Tivemos de contratar um computador. Tomamos providências, sob a nossa fiscalização, porque se criou um clima, sabe, onde se despertaram ambições e tensões muito favoráveis a uma fraude generalizada. Hoje eu disse à imprensa internacional: “Nós estamos vivendo um clima, no Rio de Janeiro, muito favorável à fraude generalizada. Por exemplo, a troca de urnas, ‘porque então há uma diferença pequena. Porque não sei o que é”. Não vai haver uma diferença pequena, desde que houvesse uma continuidade na computação do voto majoritário. Eu compreendo uma questão de preferência, mas se tivessem sido computados os votos dados aqui no Rio, simultaneamente com os do interior. Aquilo que fosse aparecendo, ia tocando. Não é verdade?…

Paulo César de Araújo – Só uma observação: O primeiro boletim parcial do TRE deu 25 urnas da capital, 25 urnas do interior e duas da periferia. 52 urnas. E o resultado foi o candidato do PDS em primeiro lugar…

Leonel Brizola – Mas acontece o seguinte… Eu não quero me referir aos primeiros resultados, não. Não, foram dias. O TRE está vivendo dificuldades. Contratou uma firma particular. É uma firma que está fazendo a computação em vários lugares e os mapas estão sendo elaborados com muitos problemas. Nós mesmos constatamos muitas imperfeições. Então, as dificuldades… Vamos dizer, o resultado oficial ‚ sempre mais atrasado e demorado, embora causasse espécie também o fato de que o TRE só tenha dado um boletim oficial praticamente 48 horas depois. Olha…

Paulo César de Araújo – 54!

Leonel Brizola – Veja o seguinte: falando aos correspondentes estrangeiros – e eles próprios disseram lá: “Bom, para nós isso não existe. Há 30, 40, 72. A três dias e três noites das eleições, o Rio de Janeiro está vivendo a indefinição”, enquanto em todos os Estados, a situação já estava praticamente definida”.

André Gustavo – Dr. Brizola…

Leonel Brizola – Isto é que eu realmente registro como uma lição para todos nós. Porque eu me sinto no dever de defender o direito destes cidadãos e cidadãs, destes eleitores. E não só os que votaram em mim, que me honraram com sua confiança, mas que votaram até nos meus competidores. É um direito de ter essa informação. Fluir. Fluir, tranqüilamente, e não num ambiente de confusão.

André‚ Gustavo – Eu queria lhe colocar…

Paulo César de Araújo – Um momentinho só, porque agora nós vamos aos nossos estúdios, em São Paulo, onde o nosso companheiro Armando Nogueira tem uma pergunta a fazer ao senhor (Brizola)…

Leonel Brizola – Com muito prazer!…

Paulo César de Araújo – Pois não, Armando…

Armando Nogueira – Boa noite, governador!

Leonel Brizola – Boa noite!…

Armando Nogueira – Estamos acompanhando aqui a sua entrevista, com natural interesse, e a certa altura pareceu que o senhor ficou preocupado, em dado momento da apuração, com a correção do trabalho dos profissionais da Rede Globo, entre os quais eu figuro, humildemente, mas com muito orgulho. E eu perguntaria ao senhor, governador, se é justo que profissionais com um passado, alguns com um futuro, quase todos com um futuro, devam merecer, numa hora de paixão, um tratamento tão rigoroso da parte de um homem público, por parte de quem a gente tem um apreço. Eu gostaria de fazer esta pergunta, que ela é quase pessoal. O senhor me desculpe introduzir uma pergunta pessoal, mas em nome de cerca de dois mil jornalistas… E eu me sinto no dever de fazer essa pergunta ao senhor…

Leonel Brizola – Perfeito. Com muito carinho, com muito prazer, Armando. Sabe que eu dou essa resposta com aquela franqueza que me caracteriza – não ‚ verdade? E nós devemos sempre usar esse método da franqueza, da lealdade. Eu registrei o que era real. Eu não cheguei a entrar no mérito. Eu não cheguei, de forma nenhuma, a considerar que tivesse havido má fé… Não cheguei, absolutamente. Eu registrei uma situação real existente aqui no Rio de Janeiro e também os meus próprios sentimentos. Porque eu senti o nosso Rio, no conjunto, desmerecido. Chegava a ser anunciado: “Olha, logo em seguida, vem o Rio de Janeiro!” E depois vinha o Acre, vinha Rondônia, e nada… Então, eu registrei isto: é que faltava essa informação. Agora, pode ser que tenha entupido… os canais tenham se entupido aí. Havia dificuldades… Porque numa organização grande é assim, às vezes o gigantismo‚ uma doença das organizações. Isto pode acontecer, isto pode ocorrer. Isto sem desmerecer os profissionais., não é verdade? Muitas vezes, grandes médicos vão fazer uma operação e o doente morre. Quer dizer, eu registro o fato, apenas, sem fazer nenhum desmerecimento. E o faço com lealdade, com espírito limpo. E, querendo com isso, que retiremos lições deste fato, porque isto incentivou a muitas coisas, no Rio de Janeiro, desagradáveis. E que nos levou a um trabalho intenso. Eu próprio, daqui, neste momento, Armando, a mensagem que eu dirijo, a todos quantos me ouvem, com a consideração da minha palavra, de uma mensagem minha, ‚ que mantenham-se tranqüilos, mantenham-se calmos, cabeça fria. A nossa fiscalização não deve se atritar com ninguém; ao contrário, agir com eficiência, agir com uma atenção especial… Vamos trabalhar, no sentido de que a verdade eleitoral flua e surja, seja qual for. E perante ela nós temos que nos curvamos. Lutar, cuidar, para evitar as fraudes, evitar qualquer irregularidade. Vamos honrar a justiça, vamos respeitar, vamos considerar. Fazer com que a justiça paire acima de qualquer suspeita, seja prestigiada. Se não tivermos uma justiça prestigiada, não temos ordem jurídica, não temos democracia, não temos nada; muito menos a verdade eleitoral. Quer dizer. não tome esses meus comentários, Armando, como uma desconsideração, como um desmerecimento aos profissionais. Ao contrário, eu até fiquei admirado como é que um conjunto, uma equipe extraordinária de profissionais, como são vocês todos, pudesse entrar nesse descompasso que houve. E tanto que gerou esse estado de espírito. Mas, felizmente, eu acho que tudo está retomando, compreendeu, aos seus níveis normais. Eu fiquei aqui muito honrado de ouvir essa projeção final, que está canalizando no sentido de um reconhecimento da possibilidade de que a maioria eleitoral se estabeleça em torno de meu nome. Como veria também, se a verdade fosse outra. De modo que não tem nenhum sentido… Eu quero que o amigo Armando Nogueira considere que não há nenhum conteúdo de desmerecimento a vocês todos, que certamente estão trabalhando muitíssimo, no cumprimento dessa nobre tarefa.

Armando Nogueira – Pois é, governador, eu gostaria que o senhor, já neste estado de espirito de compreensão, o senhor aproveitasse a oportunidade para, ao desagravar a Rede Globo, desagravar também de certa maneira o Tribunal Regional Eleitoral. Porque, o senhor sabe, que, fosse qual fosse a discrepância dos números, jamais os magistrados da Justiça Eleitoral iam se deixar perturbar por uma manipulação. Eu sei o que é a Justiça Eleitoral… E o senhor sabe também, porque o senhor exaltou essa retidão da Justiça Eleitoral, ao longo de toda a campanha, e o senhor sabe perfeitamente que os números que estão chegando agora – eles estão chegando porque eles correm um ritmo normal e não o delírio, governador. Nós não entramos no delírio dos números. Aqui, em São Paulo, também, no primeiro dia, nós ficamos aquém, mas quisemos ficar aquém da fantasia, para ficar de acordo com a realidade, governador. Eu peço licença para não importunar mais a sua entrevista. Vou continuar, como telespectador. Muito obrigado.

Leonel Brizola – Não, mas pode crer que foi uma satisfação muito grande contar com a sua participação, sobretudo uma honra maior ainda. Mas eu gostaria de dizer o seguinte: que, agora, sim, nós discordamos. Em primeiro lugar, nunca, em nenhum momento, tanto eu quanto o PDT, pusemos em dúvida a lisura da Justiça Eleitoral. Ao contrário, nós trabalhamos para que ela fosse respeitada na campanha eleitoral. E (ela) foi muito desconsiderada, principalmente por parte do candidato do governo e a sua campanha. E muitos outros setores, que desconsideraram reiteradamente a Justiça Eleitoral. De modo que eu não tenho nada que desagravar a Justiça Eleitoral, Armando. Ao contrário, o meu primeiro passo como candidato foi visitar a Justiça Eleitoral e prestigiá-la. Eu tenho uma tradição de prestígio e de acatamento ao Poder Judiciário. Agora, a minha referência sobre uma possibilidade de fraude não se refere aos juízes; se refere a este submundo que passou a se mover, em função desta confusão que se criou aqui. Porque nós temos indícios muito concretos a este respeito. Então, isto pode se passar, independentemente do cuidado do zelo dos juizes. E depois constatar essas providências é muito difícil. Nas minhas críticas – porque, na verdade, é crítica mesmo, no bom sentido, no sentido elevado. Não tem nada com exaltação, me desculpe, Armando. Pelo contrário, a cabeça aqui, oh… quando começa a adquirir uma temperaturazinha, eu boto na geladeira. Cabeça fria, a minha… Mas como é que eu posso me conformar que vocês computem a toda hora urnas do interior e deixem as urnas da cidade, aqui?… Custa muito mais uma viagem – me desculpe, lá de Campos, lá de Bom Jesus, lá de Itaperuna, do que uma corrida de automóvel ali em Bom Sucesso, ali na Baixada. E isso foi ficando para trás. E eu acho que era uma idéia parelha do resultado das eleições. Isso se foi – alguém teve a intenção de esvaziar, enfim, a projeção dos resultados do Rio de Janeiro, cometeu um erro. Porque, ao contrário, isso vai dar ‚ um refluxo, porque agora toda a Nação está acompanhando o que está ocorrendo no Rio de Janeiro. Mas, enfim, Armando, olha, com toda a franqueza, pode crer que, em mim, não existe mais nenhuma restrição a esse respeito. Sempre para mim, do passado recente, remoto, eu colho dele lições. Eu acho que essa é a grande conduta para qualquer um de nós. Pode crer que, assumindo essas responsabilidades de governo, no Rio de Janeiro, nós vamos ter de trabalhar juntos. Nós vamos ser companheiros de viagem. Vamos ter de conviver. Vamos ter de trabalhar juntos por essa comunidade, que vocês aqui têm as raízes sob ela, não é verdade? Então, falar em Rede Globo, falar no Rio de Janeiro, é como falar de uma coisa só. Isso tudo está entrosado, está interligado. E nós vamos ser companheiros de viagem, vamos trabalhar juntos. Podemos discordar num momento, discordar noutro, mas vai nos sobrar terreno comum de trabalho conjunto, por essa terra e por essa gente querida do Rio de Janeiro.

André‚ Gustavo – Governador, não faz muito tempo houve, vamos dizer assim, uma troca de notas de impressão entre o senhor e ministros militares. Tempos atrás, no início dos anos 60, o senhor encontrou alguns problemas no seu relacionamento com os militares. Então, eu lhe faço uma pergunta muito específica: o senhor, governador, como vai se relacionar com os militares, que estão aí?

Leonel Brizola – Francamente, eu não creio que possa ocorrer maiores problemas. Eu vou procurar me conservar sempre superior a qualquer episódio ou situação que possa, enfim, ocorrer. Mas eu não tenho maiores preocupações a esse respeito. Porque o interesse público é impessoal e se qualquer um de nós realmente está devotado ao interesse público, ao cumprimento do seu dever, dos seus compromissos, não pode estar agindo em função dessas inibições inferiores. Nós podemos estar em situações divergentes. Podemos até não gostar um do outro. Mas temos o dever de colaborar em benefício do interesse público. Eu não sinto, francamente, que possa haver dificuldade alguma, de minha parte, em tratar com quem quer que seja, qualquer que seja a autoridade – por exemplo, no âmbito federal, civil, militar -, desde que o interesse público esteja em jogo. Não terei problema nenhum em dialogar. Eu não creio, por exemplo, nessas questões que levantaram aí, para favorecer o candidato do Governo federal, que só ele ia ter o benefício do Governo federal, as verbas… Olha, eu já fui governador com um Presidente companheiro, um Presidente aliado e um Presidente adversário. Pois, olha, eu me dei muito mais foi com o Presidente adversário. Porque tudo é mais formal, mais respeitoso. E o Presidente companheiro ou aliado sempre coloca a mão no ombro e diz: “Olha, agüenta, companheiro, a situação está difícil”… Compreendeu? Então, eu digo o seguinte: não tenho preocupação nenhuma a esse respeito. Mesmo porque, qualquer discriminação a mim, ao assumir o Governo do Rio de Janeiro, eleito, eu não sou mais a pessoa do Leonel Brizola. Que, como pessoa humana, como cidadão, pode ter tal ou qual defeito no conceito de uma terceira pessoa. Não. Eu sou o representante do povo do Rio de Janeiro. De modo que, qualquer autoridade que não goste da minha cara, não goste de mim, não goste dos meus antecedentes, tenha julgamentos, tenha pré-julgamentos, tem que partir deste conceito de que eu não sou eu, Leonel Brizola; eu sou o governador de todos os cariocas e fluminenses. Eu acho que o Governo federal não vai discriminar o Rio de Janeiro. Porque discriminar o Governo, discriminar a mim, pessoalmente, não. Discriminaria a comunidade, o povo do Rio de Janeiro. Em segundo lugar, eu me questiono: quem necessita mais um do outro? Será o Rio de Janeiro do Governo federal ou o Governo federal do Rio de Janeiro? Eu acho que, a rigor, ambos se necessitam e a colaboração é indispensável. Eu não terei problema nenhum em dialogar, tratar, discutir, mesmo porque eu não vou pedir favores pessoais. Eu jamais transporei a porta de entrada de qualquer organismo federal ou palácio, para pedir favores pessoais, para pedir benemerências. Eu vou como portador dos problemas do Rio de Janeiro, apoiados pela sua opinião pública. E não vou para constranger ninguém. Vou colocá-los lucidamente. De modo que eu acho que a colaboração é um dever! E está acima de nós. É aquela história de que uma mão lava a outra. Exatamenmte, o Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro ‚ uma das áreas… Uma, não, é a área do país de maior vocação nacional, é a porta de entrada do país. Veja o que o Governo federal tem aqui. Enormes organismos, a começar por esta enorme guarnição militar, para voltar ao assunto que você me perguntou. Não apenas por estas enormes estruturas que tem esta guarnição militar, mas pelas pessoas humanas que trabalham, que servem a essas estruturas, precisam de serviços públicos, aqui. Precisam que funcione a cidade e que funcione o Estado. Assim funcionará o Governo federal. Então, isto é uma mão que lava outra, e as duas, a cara, como se costuma dizer popularmente. Só assim, trabalhando em colaboração, nós servimos a Nação, porque acima de nós, este país está vivendo impasses tão duros – e o Rio de Janeiro sofre esses impasses como poucas áreas – e o nosso povo passando dificuldades tão grandes, que, francamente, eu acho que a inexistência de colaboração seria um grande desserviço à população e ao país. E eu acho que isso não ocorrerá”

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